Consumidor troca
banco por concessionária
Marli Olmos e Claudia Facchini
20/06/2007
| Com a proliferação do crédito, que pode ser obtido hoje em qualquer
setor, desde uma concessionária de veículos até uma loja de sapatos, o
consumidor consegue encontrar formas de endividamento cada vez mais
criativas. Rosa Maria Bernacchio queria reformar o apartamento, mas as
taxas de juros oferecidas pelo banco eram desanimadoras. A dentista,
então, encontrou uma forma peculiar de obter recursos mais em conta.
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| Ela foi até a Primo Rossi e vendeu a sua picape
S-10, ano 2001, por R$ 22,5 mil. Com este dinheiro comprou, à vista, o
material de construção para o apartamento. E ainda saiu da concessionária
Volkswagen com um carro novo - um Fox, de R$ 35 mil,
que pagará em 60 prestações de R$ 900. |
| Obter dinheiro em lojas de carros, uma modalidade que o mercado já
apelidou de "troca com troco", tem se tornado cada vez mais comum, segundo
o gerente de vendas da Primo Rossi, Marcos Leite. "Muitos querem fugir das
taxas do cheque especial e sabem que podem encontrar em uma concessionária
taxas de juros mais baixas ", afirma. |
| No caso de Rosa, a agência bancária iria lhe cobrar uma taxa de 4% ao
mês se ela contratasse o empréstimo de R$ 22,5 mil para a obra. No
financiamento do carro (na modalidade leasing), ela conseguiu juros muito
mais magros: 1,18% ao mês. Eu prefiro pagar o material da obra à vista na
esperança de obter preços melhores, mas está difícil porque as lojas de
construção preferem empurrar a venda parcelada", explica a dentista.
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| Somente nos três primeiros meses do ano, a carteira de financiamentos
de veículos alcançou o volume total de R$ 66,9 bilhões, 23,3% mais do que
em igual período do ano passado. O crescimento nesse setor superou o do
mercado financeiro. O crédito destinado às pessoas físicas no período
somou R$ 204,5 bilhões, segundo dados do Banco Central. A Associação
Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), estima que o
total de recursos a serem liberados pelo sistema financeiro vai crescer de
20% a 25% este ano. |
| Segundo dados do Banco Central a taxa de juros média anual cobrada em
financiamentos de veículos no primeiro trimestre ficou em 31,2%, índice
mais baixo até que a do crédito consignado (32,4%). Os financiamentos de
outros bens atingem taxa média de 55,4%. Já no caso do crédito pessoal, a
média foi de 55,4% e no cheque especial, 140,8%.
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O consultor especializado em varejo, Eugênio Foganholo, da
Mixxer, acredita que a cadeia automobilística tem dado
lições de crédito e é um exemplo para os demais setores de como o
financiamento pode ser usado para alavancar as vendas. Ao contrário do
varejo em geral, no mercado de veículos quem dá o tom dos juros são os
fabricantes e não os lojistas. |
| Às montadoras interessa mais aumentar a produção e ganhar escala do
que obter receitas com a cobrança de juros. |
| No varejo de eletrônicos ou mesmo de vestuário, o crediário acaba
sendo uma fonte extra de lucros. As lojas ganham com os juros e não só com
o produto que vendem, o que pode gerar conflitos de interesse.
"O
brasileiro percebe e não gosta disso", afirma Foganholo. "Já num
financiamento de carros ele fica com a idéia de cobrança de juros mais
justa", completa. |
| Uma das armas do comércio em geral são os planos sem juros. No
entanto, como nada é de graça, muitos consumidores desconfiam que os juros
estejam embutidos no preço à vista, principalmente nos planos mais longos,
em 10 ou 12 vezes. As varejistas garantem que não fazem isso e recusam-se
a conceder descontos para pagamentos à vista. O jeito é pechinchar.
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Trocar o carro e levar o "troco" se transformou em uma modalidade de
crédito cada dia mais comum
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| Nos planos com juros as taxas podem ser salgadas, dependendo do setor
e, principalmente, do índice de inadimplência, que é um componente
importante na formação da taxa de juros. |
| Nas lojas de vestuário, como a Renner e
C&A, os juros nos planos de 0 + 8 vezes chegam a
4,99% ao mês. Já a rede de material de construção
C&C parcela em 24 meses com juros mensais de 1,49%.
Nas concessionárias, é possível dividir o pagamento em 60 vezes a 1,28% ao
mês. Mas a inadimplência nos financiamentos de automóveis, que gira em
torno de 3%, também é mais baixa do que em outros segmentos, como
vestuário ou eletrodomésticos, bens que não são tomados de volta caso o
cliente não pague por eles. |
| "Para a Renner, o parcelamento com juros é uma mais uma ferramenta
para aumentar as vendas", afirma José Carlos Hruby, diretor financeiro da
varejista. Apesar dos ganhos cada vez maiores com os serviços financeiros,
o foco da rede é - e será sempre - vender roupas, diz ele. Os planos de
oito vezes com juros só começaram a ser oferecidos no ano passado e hoje
já representam 15% das vendas. Hruby acredita, porém, que esse percentual
já está de bom tamanho. |
| Segundo o presidente da Volkswagen, Thomas Schmall,
há um ano os financiamentos acima de 36 meses contemplavam 34% das vendas
de automóveis da marca. Este ano 49% dos carros Volks são vendidos em
planos de financiamento de mais de 36 meses. Na Fiat,
os automóveis vendidos em planos de financiamento ou leasing já somam 64%
do total e destes 78% são feitos com prazos acima de 36 meses.
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| Segundo o diretor de marketing da C&C, Mauro Flório, a rede
oferece as mais variadas formas de pagamento. Fica a critério do freguês.
A varejista, por exemplo, parcela em cinco vezes com dois meses de
carência para dar fôlego ao cliente. |
| No varejo, acrescenta, o crédito tem ainda um outro efeito colateral.
Como as grandes cadeias têm mais capital de giro e fôlego financeiro para
parcelar os pagamentos do que os pequenos comerciantes, elas conseguem
ampliar a participação de mercado. |
| Para o presidente da Citroën, Sérgio Habib, as
vendas de veículos crescem à medida em que os prazos de financiamento e a
confiança do consumidor aumentam. Hoje é possível adquirir um automóvel em
até 72 meses. "O carro é um bem durável e o brasileiro compra quando acha
que amanhã ele vai estar melhor", afirma. O ritmo das vendas tem
surpreendido os próprios dirigentes das montadoras. O volume acumulado no
ano já é 24% maior do que há um ano. |
| Junto com a estabilidade econômica, as taxas de juros mais atraentes
elevaram a oferta de planos de financiamento mais longos para automóveis.
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| O quadro favorece a venda dos carros mais caros. "Boa parte dos
compradores de carros médios em 48 meses hoje é a mesma que comprava um
popular em 24 meses há dois anos, quando os juros estavam mais altos", diz
Habib, da Citröen.
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