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São Paulo, 14 de janeiro de 2008

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Espaço menor para roupas e alimentos
Daniele Madureira, Cibelle Bouças e Vera Saavedra Durão, de São Paulo e Rio
14/01/2008


Silvia Costanti / Valor
Rocha, da Riachuelo: "O mercado ficou desapontado com as suas próprias projeções, mas nós continuamos crescendo"
Enquanto os consumidores disputavam freneticamente as mercadorias em gôndolas e cabides nos últimos três meses de 2007, afoitos com a chegada do Natal, o mercado de capitais assistia ao arroubo consumista com uma frieza impassível. Concentrando sua atenção em ações de primeira linha sem nenhum apelo emocional, a exemplo de petróleo e minério de ferro, os investidores deixaram de lado os papéis das grandes redes de varejo no Brasil. A cotação das principais empresas do setor na bolsa de valores caiu sensivelmente no último trimestre, período que chega a representar 40% das vendas nas lojas. Para 2008, não há indicações até agora de que a disposição dos investidores vai mudar - e mesmo especialistas em varejo e as próprias redes têm dúvidas se o ritmo de crescimento vai continuar o mesmo este ano.


"A conjuntura econômica positiva - com aumento da renda, juros em queda, ampliação do crédito e do nível de emprego - animou os consumidores a aumentarem suas compras, o que favoreceu o varejo no ano passado", afirma o consultor Eugênio Foganholo, diretor da Mixxer Desenvolvimento Empresarial. "Mas essa mesma confiança fez com que as pessoas comprometessem parte da renda com bens de alto valor, como carros e imóveis, o que deve inibir de certa forma o consumo em 2008", afirma.


Nesse contexto, segundo Foganholo, os segmentos menos atingidos do varejo são os de linha branca (eletrodomésticos), cinza (computadores) e marrom (eletrônicos), justamente aqueles dedicados a equipar a casa. "Em 2007, houve grande procura por TVs de plasma e também computadores, cuja venda superou a de televisores", lembra. Segundo o IBGE, de janeiro a outubro, o comércio expandiu 9,6% no país, com crescimentos mais expressivos nos setores de veículos e autopeças (23,8%), material de construção (10,4%), móveis e eletrodomésticos (16%) e equipamentos de informática (27,1%). O varejo de alimentos - foco dos super e hipermercados, que vem sendo pressionado pela inflação - e o de vestuário tendem a desacelerar neste ano.


O varejo de roupas, definitivamente, não vive o seu melhor momento. "Com tantas contas a pagar, de carro e apartamento até a TV nova, é possível que o consumidor aperte o cinto na hora de gastar com vestuário", diz a gerente de relações com investidores da Lojas Marisa, Renata Kater.


No período de 28 de setembro do ano passado até o último pregão, de 11 de janeiro, as duas maiores perdas no preço da ação de empresas do setor se deram nas varejistas de vestuário: Guararapes ON (Riachuelo, com queda de 33,48%) e Marisa ON (- 31,40%). Newton Rocha, diretor superintendente da Riachuelo, não se abala com a oscilação. "O mercado ficou desapontado com as suas próprias projeções, mas nós continuamos crescendo", afirma o superintendente da Riachuelo, dona de 92 lojas e que se prepara para abrir até 20 novos pontos-de-venda este ano.


Segundo Nilo Lopes Macedo, coordenador da Pesquisa Mensal do Comércio, feita pelo IBGE, desde 2004 a venda de roupas não acompanha o padrão de outros segmentos do varejo, cujo faturamento cresce continuamente. "O vestuário vive um período longo de sobe e desce", diz Macedo. Ele observa, porém, que em 2007 as vendas de roupas voltaram a crescer por conta do aumento da massa salarial. O último dado da pesquisa do IBGE, referente a outubro de 2007, aponta um crescimento de 14,5% na venda de vestuário sobre o mês anterior; em outubro de 2006, a alta havia sido de 1,4%.



"É possível que o consumidor aperte o cinto na hora de gastar com vestuário", diz a gerente da Lojas Marisa


Os dados do Banco Central mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) do varejo cresceu 9,12% em 2007, enquanto que o aumento projetado para o PIB no ano é de 5,26%. "A expansão do crédito para pessoas físicas em 2008, projetada entre 15% a 20%, mais uma vez ajudará o comércio a se manter aquecido, mas em ritmo menor do que em 2007", diz Macedo.


Nuno Fouto, coordenador do Programa de Administração de Varejo da Fundação Instituto de Administração (Provar-FIA), concorda. "Além de casa e carro, muitos consumidores acabaram adquirindo itens de alto valor agregado, que vão além do que o seu bolso consegue suportar", afirma. As parcelas destas compras, diz, vão pesar ao longo de 2008. "Com medo de se tornarem inadimplentes, as pessoas devem refrear as vendas ou buscar itens cada vez mais baratos", afirma o economista.


A Riachuelo está atenta a este movimento. Com uma estrutura verticalizada, as confecções do grupo Guararapes dirigem cerca de 80% da sua produção para a rede varejista. "Nosso objetivo este ano é aumentar ainda mais essa proporção, para oferecer produtos de qualidade e mais baratos", diz Rocha, que também tem outra preocupação em mente: a inadimplência. "A variação no percentual de consumidores inadimplentes foi pequena no ano passado, da ordem de um ponto percentual no acumulado até setembro, chegando a 9% da nossa base", diz o empresário. No crediário, a Riachuelo soma 13,5 milhões de clientes. "Mas estamos nos preparando para reforçar o cuidado na concessão de crédito", afirma.


A Riachuelo está investindo em um novo software para concessão de crédito e cobrança, fornecido pela SAS, empresa americana que vende sistemas de análise de dados. "Vamos substituir o software anterior, que era proprietário", diz Rocha. Na opinião do empresário, as classes C e D ainda não sabem bem administrar suas dívidas e, com o impulso para o consumo, proporcionado pelo aumento da renda, muitos podem ter se endividado além do previsto. "Esse público sempre teve duas grandes contas a pagar no mês: aluguel e supermercado", lembra. "Com a oferta de crédito, os gastos podem ter extrapolado demais a renda".


Essa preocupação, porém, não deve tirar o sono do varejo, na opinião do economista-chefe da consultoria Gouvêa de Souza & MD, César Fukushima. "A taxa de inadimplência de pessoa física chegou ao pico de 7,2% em 2007, enquanto que no ano anterior esse índice atingiu 7,7%", diz ele, citando dados do Banco Central.


Com uma visão mais otimista de 2008, Fukushima não acredita que o mundo da bolsa de valores reflita o que acontece nas lojas da vida real. "Ainda que a pressão da inflação sobre os alimentos comprometa em parte a venda dos super e hipermercados, o varejo em geral deve continuar crescendo em 2008", afirma. E as lojas de roupas, diz, vêm readequando seu mix para produtos mais baratos. "Independentemente dos resultados financeiros das grandes empresas, as pessoas continuam consumindo".





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