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Problemas no Rio de Janeiro

 | 03.05.2007

Dívidas, prejuízos e brigas com os sócios cariocas atormentam o Pão de Açúcar

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Por Samantha Lima

EXAME 

A perda da liderança no ranking de supermercados não é o único problema que aflige os executivos do grupo Pão de Açúcar. A rede varejista enfrenta sérias dificuldades em sua operação no Rio de Janeiro, responsável por 20% do faturamento do grupo. Desde que os negócios foram fundidos com os da família Sendas, dona da rede de supermercados de mesmo nome, a empresa do clã Diniz acumula prejuízos crescentes, queda nas vendas e alto endividamento. Para completar, a relação dos sócios, que nunca foi tranqüila, está especialmente conturbada pelos resultados ruins. As duas famílias recorreram a uma comissão de arbitragem para decidir como, quando e a que preço os donos da Sendas poderão deixar o negócio. Os sócios cariocas querem aproveitar o fato de a rede francesa Casino ter ampliado a participação no Pão de Açúcar, em meados de 2005, para exercer uma cláusula contratual que garante a eles vender sua parte ao grupo paulista em caso de mudança de controle da companhia. Quando fundiu-se com a Sendas e assumiu o processo de gestão, no início de 2004, o Pão de Açúcar previu voltar aos lucros no Rio em dois anos. Passados três, o prejuízo foi de 112 milhões para 625 milhões de reais em 2006. Só no ano passado, as vendas caíram 3,8%, ante um crescimento de 2,1% em todo o grupo. E, apesar de concentrar um quinto do faturamento da empresa, a operação no Rio é responsável por metade da dívida da empresa, atualmente no valor de 1,9 bilhão de reais.

Procurados por EXAME, executivos do Pão de Açúcar não quiseram comentar o assunto. No entanto, o próprio presidente da empresa, Cássio Casseb, já demonstrou publicamente sua preocupação com a operação no Rio de Janeiro em pelo menos duas ocasiões. A primeira delas foi em novembro, em uma reunião com analistas de mercado. Casseb disse, na época, que corrigir as falhas da operação no Rio e na Sendas era prioridade. Em abril, em nova reunião, ele disse que a rede finalmente registrara aumento de vendas no Rio, de 1,4%. "No Rio de Janeiro, nos comprometemos (em 2007) com um ganho de market share", afirmou. O crescimento no estado, no entanto, ainda é bem menor que a média do grupo no mês de março, de 4,5%. Como parte do esforço para reerguer a operação, a direção da empresa instituiu um programa batizado de Vira Rio. "O objetivo é dar autonomia aos executivos locais e conhecer melhor o mercado", diz um executivo ligado ao projeto. Sempre que se refere aos problemas no Rio, o presidente do conselho do Pão de Açúcar, Abilio Diniz, diz que é difícil competir num estado com altas taxas de informalidade e sonegação. Na verdade, essa é apenas parte da explicação para os maus resultados.

O desafio carioca do Pão de Açúcar
Os principais obstáculos do grupo paulista no Rio de Janeiro
Prejuízo contínuo
Em dois anos, o prejuízo de 112 milhões de reais da operação no Rio aumentou para 625 milhões
Dívida acumulada
O endividamento da Sendas Distribuidora, que representa 20% dos negócios, equivale à metade da dívida total do grupo, atualmente em 1,9 bilhão de reais
Sócios beligerantes
A família Sendas disputa em arbitragem o direito de sair da sociedade no Rio após a venda do Pão de Açúcar ao grupo francês Casino

Assim que assumiu a Sendas, o grupo Pão de Açúcar empreendeu uma ampla reforma nas lojas e um programa radical de corte de custos. Mais de 2 000 funcionários foram demitidos, contratos com fornecedores renegociados e verbas de marketing cortadas -- até mesmo o ar-condicionado das lojas foi desligado como forma de redução dos gastos. Em 2006, as despesas diminuíram 5,5%, valor que permitiu ao grupo oferecer preços mais competitivos a seus clientes. Mas a concorrência também baixou os preços, e as vendas não cresceram. Desde 2004, a participação de mercado da Sendas estacionou em cerca de 7% -- nos anos 90 era 18%. Para os analistas ouvidos por EXAME, o resultado não veio por dois motivos. O primeiro é a falta de uma estratégia clara para o mercado carioca. "Não se sabe por qual perfil de consumidor eles competem, se pela classe C ou pelas mais altas", diz Eugênio Foganholo, da Mixxer Desenvolvimento Empresarial. O segundo motivo para os analistas está no perfil dos executivos responsáveis pela operação. Até o ano passado, a divisão carioca estava nas mãos de Hugo Bethlem, executivo que comandava também outros negócios do grupo e ficava na sede da empresa, em São Paulo. Frente às dificuldades, o grupo criou uma diretoria específica para o mercado carioca e contratou o executivo Jorge Herzog, ex-diretor do Carrefour, para comandá-la. "Não adianta trazer alguém de uma rede que não foi bem-sucedida no Rio para resolver um problema desse tamanho", diz um analista. Em meio a uma disputa tão acirrada pelo mercado nacional, a grande pergunta entre os analistas é até que ponto a operação carioca do Pão de Açúcar valerá a pena.

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