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Segunda-feira, 28 maio de 2007   edições anteriores
ECONOMIA & NEGÓCIOS
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  Loja popular trata cliente com mordomia de consumidor de luxo

Lojão do Brás e Torra Torra são a cara do novo fenômeno do comércio, estudado pela Fundação Getúlio Vargas

Márcia De Chiara

Foi-se o tempo em que a loja de produtos para a população de baixa renda era apertada, bagunçada e com cara de grande depósito atacadista de artigos de confecção que não oferecia serviços ao cliente. Hoje já existem megalojas em ruas de comércio popular que oferecem serviços e até mordomias para a clientela, a exemplo do tratamento vip de butiques e shoppings mais sofisticados.

Nessa espécie de “Daslu” para a baixa renda, há praticamente todos os ingredientes que fazem a festa do consumidor. As lojas são amplas, na faixa de 4 mil metros quadrados, bem iluminadas, com ar-condicionado, escada rolante, balcão com café de máquina e até uma sala de estar (lounge) para o cliente descansar das compras assistindo a um videoclipe num televisor de plasma de 42 polegadas. E mais: o preço é baixo.

“Não se trata de um formato popularesco de loja com um toque de sofisticação”, diz Maurício Morgado, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e pesquisador do Centro de Excelência em Varejo (CEV), da FGV. Ele diz que cada detalhe, como vitrines que associam roupas a diferentes estilos de vida, é milimetricamente planejado para conquistar o consumidor. Na quinta-feira, ele apresentará estudo sobre esse novo formato de varejo popular durante o 1º Seminário sobre o Varejo de Baixa Renda, realizado pelo CEV, em São Paulo.

Morgado destaca que, no passado, essas lojas de confecções e artigos de cama, mesa e banho estavam só voltadas para o preço baixo. Mas, a exemplo do que ocorreu com os supermercados, a estabilização da moeda mostrou que o consumidor de menor poder aquisitivo, com renda familiar de até R$ 2 mil, quer mais. Além disso, pondera, preço é o item mais fácil de ser copiado pela concorrência.

Pesquisa feita pelo professor Juracy Parente, coordenador do CEV/FGV, com grupo de consumidores de baixa renda que freqüentou três redes varejistas, revelou que, apesar de eles declararem que preço é fator decisivo na compra, a loja apontada como a melhor numa lista de três foi a que tinha preços mais altos. “Mas a loja oferecia alto nível de serviço e tinha visual bom”, observa Parente. Ele diz que a forma como a baixa renda percebe preço não é tão objetiva como se supõe.

Que o diga a dona de casa Marluce Marques de Oliveira, de 48 anos. Moradora de Guarulhos, na semana passada ela assistia a um videoclipe, com as duas netas, Alana, de 8 meses, e Radassa, de 4 anos, numa espécie de sala de estar montada na loja Torra Torra, na Penha, enquanto a filha comprava roupas de inverno para as crianças. “Não adianta a loja ter preço baixo, se não é oferecido conforto e bom atendimento.”

De fato, quem percorre a loja da Torra Torra, com 3 mil metros quadrados de área de vendas, a maior e mais moderna de uma rede de 34 pontos-de-venda, fica surpreso. Localizada no Praça 8 de Setembro, região central da Penha, a loja impressiona pelo lado de fora: na calçada não há camelôs, só bancos e canteiros, imitando uma praça de cidade do interior.

Na entrada, há as famosas banquinhas com artigos de vestuário. Mas, na medida em que se avança para dentro da loja, o ambiente muda. Fotografias gigantes exibem os artigos de vestuário em situações de uso: no trabalho ou no lazer, por exemplo. A história se repete também nos artigos de cama, mesa e banho. No andar intermediário, toalhas e lençóis são exibidos em banheiros e dormitórios montados, como se fosse dentro de uma casa.

PLAYGROUND

Mas as novidades não param por aí. Quem leva os filhos pequenos pode deixá-los por meia hora num playground no fundo da loja, enquanto escolhe os produtos. “Aqui fico despreocupada na hora de fazer compras”, diz a dona de casa Nalva da Silva Oliveira, de 34 anos, mãe de três filhos. Na semana passada, ela optou por essa loja por causa do preço e do conforto.

No Lojão do Brás, que fica no Largo da Concórdia, tem até fonte com bancos para o consumidor descansar na parte central da loja, que mais parece um shopping center. Com 3,5 mil metros quadrados, a loja do Largo da Concórdia é a maior das 11 filiais da rede. E passa por uma reforma que a deixará com 4,5 mil metros quadrados.

Consumidor não falta nessa loja que recebe cerca de 18 mil pessoas por dia, mas sem aglomerações. São dois andares de área de vendas, com vendedores atenciosos sem serem chatos. As instalações são amplas e têm restaurante, lanchonete e espaços reservados para a venda de embalagens e bijuterias.

A grande quantidade de produtos é outro traço semelhante à Torra Torra. Há uma enorme variedade de mercadorias, mas tudo muito organizado. Parente, da FGV, diz que abundância de produtos é uma das preferências do consumidor de baixa renda, ao contrário da alta renda que quer poucos itens expostos e exclusivos.

Para o consultor de varejo da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, Eugênio Foganholo, esse modelo de loja quebra a velha imagem de que o consumidor de baixa renda gosta de loja bagunçada. Em sua opinião, o pulo do gato dessas lojas é a localização e o tamanho.

   



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