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Domingo, 8 outubro de 2006   edições anteriores
ECONOMIA & NEGÓCIOS
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  Inovação e foco no consumidor. É a receita das lojas centenárias

Estabelecimentos resistem ao tempo apostando na diferenciação e personalização como estratégia de marketing

Vera Dantas

A conversa ao pé de ouvido para descobrir os desejos do consumidor e a busca constante de inovações, determinantes hoje para o sucesso no varejo, também têm sido estratégicas para a sobrevivência de estabelecimentos com mais de cem anos.

'Costumo me misturar com os consumidores dentro da loja para ouvir comentários, perguntas e saber onde preciso mudar', diz um dos proprietários da Doural, Fernando Assad Abdalla. Como ele, outros herdeiros ou não de negócios antigos apostam na diferenciação e investem alto na personalização para avançar no tempo.

Com as portas abertas na região da 25 de Março desde 1905, a Doural - especializada em produtos de cama, mesa e banho - foi aos poucos mudando seu perfil. Há quatro anos começou a vender eletrodomésticos importados, nos últimos dois anos a atender pedidos pela internet e agora quer abrir uma área especial para clientes de listas de casamento que desejam maior privacidade e atendimento especial na compra.

'Será uma espécie de loja dentro da loja, uma área separada com os melhores produtos dos 45 mil itens que vendemos.' A novidade, explica, foi desenvolvida na observação do comportamento de clientes. 'Nos últimos tempos notamos que o pessoal de melhor poder aquisitivo que freqüenta a região tem sido mais exigente.'

O próximo negócio da família Abdalla poderá ser a abertura da primeira loja Doural em shopping. Se sair da região da 25 de Março para algum shopping center, a 'anciã' Doural estará competindo mais de perto com concorrentes bem mais novas, como a Camicado, especializada em produtos para a casa.

'Estamos sempre inovando.' Só a fachada denuncia a idade da loja, aberta em 1905 pelo bisavô de Fernando e hoje dirigida também por um irmão e o pai deles, Assad Abdalla.

'Quanto mais se aposta em personalização no varejo, maior a chance de sucesso', diz o consultor da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, Eugênio Foganholo. É por isso que supermercados pequenos e médios, onde os proprietários costumam conhecer os consumidores pelo nome e atender toda a demanda de conveniência de um bairro, têm apresentado nos últimos anos, na média, crescimento maior do que o das grandes redes.

Conveniência tem sido um dos atributos de sucesso também da Casa da Bóia, na Rua Florêncio de Abreu. Ela surgiu há 108 anos como uma fundição de cobre, pelas mãos de um imigrante sírio. Lá se fabricavam armações niqueladas para bengalas, chapeleiras e piteiras, pés em bronze e latão, sinos para fazendas e igrejas, além, é claro, de bóias de cobre.

'A produção era quase artesanal para atender os pedidos dos consumidores', conta o proprietário da empresa Mário Roberto Rizkallah, neto do fundador. Em 1950 a empresa deixou de ser fábrica, mas vários destes produtos estão em um catálogo antigo e num pequeno museu, idealizado por Rizkallah, no mesmo antigo sobrado onde funciona a loja.

Hoje o principal negócio da Casa da Bóia é a distribuição de metais não-ferrosos vendidos por telemarketing. Mas o balcão onde o consumidor final adquire produtos como torneiras, bóias , ferramentas e produtos elétricos continua a ser o cartão de visita da empresa. 'Temos uma equipe técnica especializada e clientes que nem perguntam o preço porque valorizam tradição e atendimento', diz Rizkallah.

É a tradição que também chama a atenção de quem passa na frente da Chapelaria Paulista, na Rua Quintino Bocaiúva. Ela surgiu em 1914, quando o chapéu era peça indispensável no dia-a-dia. Em 1950, quando o chapéu perdeu espaço na moda, Aldo Lourenço Zucchi foi obrigado a ampliar o mix de produtos masculinos vendidos pela loja. Mas os chapéus se mantêm na vitrine e são um diferencial que atrai não apenas antigos fregueses, mas artistas e consumidores que gostam de criar uma moda diferenciada.

'O reconhecimento da marca tem peso no varejo e na medida em que a empresa foge do pasteurizado sai na frente da concorrência', observa um dos sócios da consultoria Gouvêa de Souza, Luis Fernando Biasetto. Mesmo disputando mercado com outras empresas mais novas e com os camelôs que invadem a Rua Florêncio de Abreu para vender ferramentas, a Casa da Bóia sobrevive.

'Busco novas tendências, informatizei a loja, terceirizei algumas áreas da empresa e já cheguei a abrir uma filial em Santo Amaro, mas o custo dobrou e a receita cresceu apenas 10%', diz Rizkallah. Ele decidiu ficar apenas com a loja do centro. Agora estuda também a possibilidade de ampliar o estoque de produtos com pisos e produtos para bricolagem. 'Não se pode parar no tempo.'

   



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